Para que a pressa, menina?
- 19 de abr.
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Certa madrugada, acordei de um sonho bem estranho, estou prestes a completar 45 anos, e tenho uma revelação: passei a vida toda perseguindo um objetivo: ser diferente.
Aprendi desde cedo a evitar repetir os mesmos "erros" de nossos antepassados. Por cuidado e amor (e também por um certo perfeccionismo), somos ensinados a fazer melhor, a ser melhores. Como se a vida fosse uma espécie de correção contínua do que veio antes.
No entanto, não podemos esquecer que são os erros e desafios que nos tornam mais humanos, mais sábios e mais fortes. A perfeição não existe!
Neste mesma noite e junto com o insight uma imagem surgiu em minha mente: eu estava presa por um elástico no abdômen, corria uma certa distância, mas com o puxão do elástico, voltava ao ponto de partida. Percebo que esse elástico é símbolo desses padrões inconscientes que repetimos sem perceber.
E então, eu me questionei, até onde cheguei?
E uma voz, até meio cruel, me disse: "você não foi muito longe; na sua mente, você tentou ir além e ser diferente, tentou ser extraordinária como um dia sua criança imaginou, mas a verdade é que você é apenas comum, normal, como todas as que vieram antes de você."
Fui surpreendida por um medo, um vazio, mas ao mesmo tempo senti um alívio imenso: que bom não precisar carregar o fardo de ser extraordinária.
Jung diz em seu livro Eu e o Inconsciente escreve: " “Em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo aspira moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade.”
Essa imagem ideal, que Jung acabou chamando de Persona, é uma adaptação que criamos muito cedo em nossas vidas.
Ana Feres descreve em seu livro O lugar do corpo na sociedade midiática neoliberal: "a persona é uma adaptação necessária, uma forma de nos relacionarmos com o outro. Podemos ter várias, dependendo dos papéis que ocupamos. O problema começa quando nos confundimos com essas máscaras — quando o ego se enrijece e já não há espaço para o novo, para o vivo, para o que pulsa por baixo."
E foi isso que reconheci em mim.
Por muito tempo, sustentei a imagem de mulher forte, empoderada, perfeita, autossuficiente. Mas hoje vejo: isso era uma compensação, por trás dessa construção, existia uma dor profunda de desamparo, fragilidade e inutilidade.
Ser mulher, para mim, estava associado a sofrimento e à desvalorização. Eu rejeitava tudo o que me parecia feminino: o cuidado, a vulnerabilidade, a emoção crua, o corpo que sente e revela. Aquilo que eu nomeava como fraqueza… talvez fosse justamente vida.
Ao evitar essa identificação, acabei fugindo de mim mesma, da minha força, das minhas raízes.
Na verdade, não fui além, apenas vesti uma persona impecável — a mulher que sabe, que controla, que dá conta. E, ironicamente, foi assim que repeti exatamente aquilo de que tentava escapar.
Volto à imagem do elástico, eu corro achando que estou distante, mas quando paro para refletir (e ganho consciência), percebo que continuo no mesmo lugar, apenas com uma "roupagem" diferente. Não criei meu próprio caminho, acreditei por muito tempo que conhecimento de livros e cursos seriam suficientes para me manter em pé, acreditei que títulos e status dariam conta do vazio que existia (e ainda existe), mas era apenas uma outra forma de evitar olhar para mim mesma.
Autenticidade carrega história, calor, erros, acertos, emoções, corpo.
Mas então algo sussura: para que a pressa, menina? Correr para onde?
Reduza o ritmo, deixe as roupas que não servem mais caírem, se precisar vá nua, mas aos poucos, no caminho, você vai se reconhecer, descobrir um novo passo, uma nova forma de caminhar, algo mais autêntico, mais próximo de quem você realmente é, com qualidades e defeitos, com acertos e erros, com coisas lindas e muita chatice, arrogância e maldade, pois sim, eu carrego tudo isso em mim, e carregar a dor de ser quem se é faz parte do meu aprendizado nesta vida.
Não resisto mais ao elástico, talvez agora, com maior consciência de mim, eu consiga utilizá-lo para me impulsionar e superar meus próprios limites. Não preciso mais escapar das minhas origens, pois agora levo em meu coração toda a sabedoria daquelas que vieram antes de mim. Muito obrigada!
Com amor,
Fernanda Priminini



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